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3 de ago de 2012

O DESENCARNE DE UM HOMEM DE BEM

Como é a morte física para o homem de bem?
Existe sofrimento, dor, angústia?
Como é o despertar no mundo espiritual?

Vejamos um exemplo no livro:

O  Céu e O Inferno - A Justiça Divina Segundo o Espiritismo Allan Kardec

SEGUNDA PARTE – EXEMPLOS

CAPÍTULO II - Espíritos felizes
SAMUEL FILIPE

Nota - Este era um homem de bem na verdadeira acepção da palavra. Ninguém se lembrava de o ter visto cometer uma ação má ou errar voluntariamente no que quer que fosse. De um devotamento extremo pelos amigos, podia-se ter como certo o seu acolhimento, em se tratando de quaisquer favores, ainda que contrários ao seu próprio interesse.
Trabalhos, fadigas, sacrifícios, nada o impedia de ser útil, e isto sem ostentação, admirando-se quando se lhe atribula por estes predicados um grande mérito. Jamais desprezou os que lhe fizeram mal; antes se dava pressa em servi-los como se bem semelhante lhe houvessem feito. Em se tratando de ingratos, dizia: “Não é a mim, porém a eles que se deve lastimar”. Posto que muito inteligente e dotado de natural vivacidade, teve na Terra uma vida obscura, laboriosa e bordada de rudes provações. Podia-se comparar a essas naturezas de escol que vivem na sombra, das quais o mundo não fala e cujo brilho não se reflete na Terra. Haurira no conhecimento do Espiritismo uma fé ardente na vida futura e uma grande resignação para todos os males da existência terrena. Finalmente, faleceu em dezembro de 1862, na idade de 50 anos, de moléstia atroz, sendo o seu passamento muito sensível à família e aos amigos.

Evocamo-lo alguns meses depois do trespasse.

- P. Tendes uma recordação nítida dos últimos instantes da vida na Terra?
- R. Perfeitamente, conquanto essa recordação reaparecesse gradualmente. No instante preciso do desprendimento eram confusas as minhas idéias.

- P. Quereríeis, a bem da nossa instrução e do interesse que nos mereceis pela vossa vida exemplar, descrever como ocorreu o vosso trespasse da vida corporal para
a espiritual?
- R. De bom grado, tanto mais quanto a narrativa não aproveitará somente a vós, mas a mim próprio, por isso que, dirigindo o meu pensamento para a Terra, a comparação faz-me apreciar melhor a bondade do Criador. Sabeis que de tribulações que provei na vida; entretanto, jamais me faltou coragem na adversidade, graças a Deus! E hoje, felicito-me! E ainda tremo ao pensar que tudo quanto sofri se anularia caso desfalecesse, tendo de recomeçar novamente as provações! Oh! meus amigos, compenetrai-vos firmemente desta verdade, pois nela reside a felicidade do vosso futuro. Não é, por certo, comprar muito caro essa felicidade por alguns anos de sofrimento! Ah! Se soubésseis o que são alguns anos comparados ao infinito! Se de fato a minha última existência teve algum mérito aos vossos olhos, outro tanto não diríeis das que a precederam. E não foi senão à força de trabalho sobre mim mesmo, que me tornei o que ora sou. Para apagar os últimos traços das faltas anteriores, era-me preciso sofrer as últimas provas que voluntariamente aceitei. Foi na firmeza das minhas resoluções que escudei a resignação, a fim de sofrer sem me queixar. Hoje abençôo essas provações, pois a elas devo o ter rompido com o passado - simples recordação agora que me permite contemplar com legitima alegria o caminho percorrido.
"Oh! vós que me fizestes padecer na Terra; que fostes cruéis e malévolos para comigo, que me humilhastes e afligistes; vós, cuja má-fé tantas vezes me acarretou duras privações, não somente vos perdôo mas até vos agradeço. Intentando fazer mal, não suspeitáveis do bem esse mal me proporcionaria. É verdade, portanto, que a vós devo grande parte da felicidade de que gozo, uma vez que me facultastes ocasião para perdoar e pagar o mal com o bem. Deus colocou-vos em meu caminho para aferir a minha paciência, exercitando-me igualmente na prática da mais difícil caridade: a de amar os inimigos.
"Não vos impacienteis com esta divagação, porquanto vou responder agora à vossa pergunta. Conquanto sofresse cruelmente com a moléstia que me acometeu, quase não tive agonia: a morte sobreveio-me como um sono, sem lutas nem abalos. Sem temor pelo futuro, não me apeguei à vida e não tive, por conseguinte, de me debater nos últimos momentos. A separação completou-se sem dor, nem esforço, sem que eu mesmo de tal me apercebesse. Ignoro que tempo durou o sono, que foi curto aliás. Meu calmo despertar contrastava com o estado precedente: não sentia mais dores e exultava de alegria; queria erguer-me, caminhar, mas um torpor nada desagradável, antes deleitoso, me prendia, e eu me abandonava a ele prazerosamente, sem compreender a minha situação, conquanto não duvidasse ter já deixado a Terra.
Tudo que me cercava era como se fora um sonho. Vi minha mulher e alguns amigos ajoelhados no meu quarto, chorando, e considerei  de mim para mim que me julgavam
morto. Quis então desenganá-los de tal idéia, mas não pude articular uma palavra, e daí concluí que sonhava. O fato de me ver cercado de pessoas caras, de há muito falecidas, e ainda de outras que à primeira vista não podia reconhecer, fortalecia em mim essa idéia de um sonho, em que tais seres por mim velassem. Esse estado foi alternado de momentos de lucidez e de sonolência, durante os quais eu recobrava e perdia a consciência do meu "eu".
Pouco a pouco as minhas idéias adquiriram mais lucidez, a luz que entrevia,por denso nevoeiro, fez-se brilhante; e eu comecei a compreender-me, a reconhecer-me, compreendendo e reconhecendo que não mais pertencia a esse mundo. Certamente, se eu não conhecesse o Espiritismo, a ilusão perduraria por muito mais tempo. O meu invólucro material não estava ainda inumado e eu o olhava com piedade, felicitando-me pela separação, pela liberdade. Pois se eu era tão feliz por me haver enfim desembaraçado! Respirava livremente como quem sai de uma atmosfera nauseante; indizível sensação de bem-estar penetrava todo o meu ser, a presença dos que amara alegrava-me sem me surpreender, antes parecendo-me natural, como se os encontrasse depois de longa viagem. Uma coisa me admirou logo: o compreendermo-nos sem articular uma palavra! Os nossos pensamentos transmitiam-se pelo olhar somente, como que por efeito de uma penetração fluídica.
Eu não estava, no entanto, completamente livre das preocupações terrenas, e, como para realçar mais a nova situação, a lembrança do que padecera me ocorria de vez em quando à memória.
Sofrera corporal e moralmente, sobretudo moralmente, como alvo que fui da maledicência, dessas infinitas preocupações mais acerbas talvez que as desgraças reais, quando degeneraram em perpétua ansiedade. E ainda bem não se desvaneciam tais impressões, já eu interrogava a mim mesmo se de fato delas me libertara, parecendo-me ouvir ainda umas tantas vozes desagradáveis. Reconsiderando as dificuldades que tanto e tantas vezes me atormentavam, tremia; e procurava, por assim dizer, reconhecer-me, assegurar-me que tudo aquilo não passava de fantástico sonho. E quando cheguei à conclusão, à realidade dessa nova situação, foi como se me aliviasse de um peso enorme.
É bem verdade, dizia, que estou isento desses cuidados que fazem o tormento da vida! Graças a Deus! Também o pobre, repentinamente enriquecido, duvida da realidade da sua fortuna e alimenta por algum tempo as apreensões da pobreza. Assim era eu.
Ah! Pudessem os homens compreender a vida futura, e que força, que coragem esta convicção não lhes daria na adversidade.
Quem deixaria então, na Terra, de prover e assegurar-se da felicidade que Deus reserva aos filhos dóceis e submissos? Gozos ambicionados, invejados, tornar-se-iam
mesquinhos em relação aos que eles desprezam!"

- P. Esse mundo tão novo e comparado ao qual nada vale o nosso, bem como os numerosos amigos que nele reencontrastes, fizeram-vos esquecer a família e amigos encarnados?
- R. Se os tivesse esquecido seria indigno da felicidade de que gozo. Deus não recompensa o egoísmo, pune-o.
O mundo em que me vejo pode fazer com que desdenhe a Terra, mas não os Espíritos nela encarnados. Somente entre os homens é que a prosperidade faz esquecer os companheiros de infortúnio. Muitas vezes venho visitar os que me são caros, exultando com a recordação que de mim guardaram; assisto às suas diversões, e, atraído por seus pensamentos, gozo se gozam ou sofro se sofrem.
O meu sofrimento é, porém, relativo e não se pode comparar ao sofrimento humano, uma vez que compreendo o alcance, a necessidade e o caráter transitório das provações. Esse sofrimento é, ao demais, suavizado pela convicção de que aqueles a quem amo virão também por sua vez a esta mansão afortunada onde a dor não existe.
Para torná-los dignos dela, dessa mansão, é que me esforço por sugerir-lhes bons pensamentos e sobretudo a resignação que tive, consoante a vontade de Deus. A minha desolação avulta quando os vejo retardar o advento por falta de coragem, murmúrios, vacilações e sobretudo por qualquer ato reprovável. Trato então de os desviar do mau caminho, e, se o consigo, é isso uma felicidade não só para mim, como para outros Espíritos; quando, ao contrário, a intervenção é improfícua, exclamo pesar: Mais um momento de atraso; mas consola-me a idéia de que nada se perde irremissivelmente.

Samuel Filipe."


Um lindo relato de um homem que soube aproveitar a experiência da reencarnação para sua evolução.
Muitos têm medo da morte física, do desencarne, mas, como vimos no exemplo do irmão Samuel, a morte é sempre a consequência da vida. Por isso, não nos preocupemos com a morte, com o momento da mudança, mas nos preocupemos com o que estamos fazendo com nossa vida.

O que estamos fazendo dessa dádiva maravilhosa que Deus nos concedeu?
Usamos nossos conhecimentos para melhorar?
Conhecemos nossas fraquezas e imperfeições para corrigi-las?
Conhecemos nossas conquistas e virtudes para ampliá-las?
Continuamos apegados aos bens materiais?
Servimos a Deus ou a Mamon?
Usamos a lógica e a racionalidade da Doutrina Espírita para entender melhor a vida, as pessoas e acima de tudo a nós mesmos?

Quem vive bem...”morre” bem...


Muita luzzzzzzz

Luciane Ruis

4 comentários:

  1. Anônimo18:44

    Lendo este maravilhoso e edificante texto, refleti a respeito da nossa conduta diária no plano terreste.Vigiai e orai, é o que creio que temos que fazer diariamente,aproveitar de boa forma a dádiva que Deus nos deu, estudando e evoluindo espiritualmente, vigiar nosso andar falar e caminhar sempre,pedindo em preces auxilio pois somos fracos , e sem o alimento espiritual como estaríamos?Praticando o desapego, nos despreendendo da materia e dos bens,tarefa naõ fácil, pois necessitamos enquanto neste plano de meios e subsidios materias, porem usa-los de maneira sabia e correta.Desta forma pautados na doutrina temos tudo o que nos é necessario para vivermos de forma agradável a Deus .Christianne Araujo

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    1. Muito sábias palavras irmã querida.
      Agradecemos a participação.
      Deus contigo sempre.

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  2. Este relato nos dá um belo exemplo de que, a dor e nossos sofrimentos, nada são, quando o nosso objetivo é vencer a nossa tendência perniciosa.

    Apóstolo Paulo já dizia que, quando penso em fazer o bem, o mal já está feito.

    Nós temos a inclinação de querer levar vantagem em tudo, inclusive, ir para o céu, paraíso ou deitar em pastos verdejantes é uma delas. Acredito que pelo fato de estarmos intimamente ligado a matéria, não conseguimos nos desfazer de algumas vaidades.

    O livro dos espíritos em algum momento aborda este assunto, nos trazendo a elucidação que a nossa transformação moral e intelectual não deveria ser uma meta, e sim, um feito. Como não é facil nos destituirmos desta ideia, vamos fazendo o dá para ser feito.

    Traçamos um direcionamento sim, fazendo uso desta oportunidade em prol de nossa evolução. Somos seres curiosos por natureza e necessitamos saber o "comos e porquês de tudo", entretanto podemos usar estes questionamentos a favor do nosso crescimento e de outrem.

    Deus nos deu a oportunidade de termos chegado até aqui, agora, saber o que precisamos fazer para melhorar e onde queremos chegar, é o mínimo de uma obrigação.

    Viver o melhor possível, desencarnamos com o mínimo de trauma, e voltar para um mundo de regeneração, creio ser o que todos desejam, deste corpo material e cheio de paixões.

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    1. Muito gratos por sua participação, irmão querido.
      Sim, com certeza, façamos o nosso melhor hoje para que o amanhã nos seja mais feliz, em qualquer lugar ou mundo em que estivermos habitando.
      Deus contigo sempre.

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